Imunizantes ajudam a evitar as formas graves da doença com segurança
O Brasil viveu a pior epidemia de dengue de sua história em 2024. Foram mais de 6,6 milhões de casos prováveis da doença, e mais de 6 mil óbitos. Em 2025, embora os primeiros meses do ano tenham registrado queda na comparação com o mesmo período do ano passado, a situação pode se agravar ainda mais. Isso porque o sorotipo 3, uma das variantes com maior potencial de levar a formas graves da dengue, está em alta circulação no país. Soma-se a esse cenário a baixa adesão à vacinação por parte do público-alvo, sujeito a informações falsas sobre os imunizantes amplamente difundidas nas redes sociais.
Pesquisa conduzida pelo instituto Ipsos, com a colaboração da Sociedade Brasileira de Infectologia, mostra que quatro em cada 10 brasileiros dizem ter recebido inverdades sobre as vacinas. Até o médico Drauzio Varella foi vítima de uma fake news, tendo seu nome envolvido em um vídeo falso no qual ele supostamente alegaria que o imunizante contra a dengue poderia provocar câncer. O desserviço é alarmante e inibe o uso de uma poderosa ferramentas no controle da doença.
Disponível nos serviços privados de imunização até fevereiro último, a primeira vacina contra a dengue aprovada no Brasil, a Dengvaxia, produzida pela Sanofi Pasteur, foi descontinuada. Segundo o fabricante, a decisão se deu em função da baixa demanda do mercado local e não está relacionada a questões de qualidade, segurança ou eficácia.
Como funciona a vacina oferecida no SUS
Atualmente, o único imunizante contra a doença no Brasil é a vacina QDenga, desenvolvida pela Takeda. Ela é tetravalente, o que significa que protege contra os quatro sorotipos do vírus da dengue – DENV-1, DENV-2, DENV-3 e DENV-4 – e foi incorporada ao SUS, podendo ser encontrada, de forma gratuita, nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) de regiões com maior incidência da doença. No momento, é ofertada apenas para crianças e adolescentes entre 10 e 14 anos, faixa etária que concentra o maior número de hospitalizações por dengue.
Em função da baixa adesão, o Ministério da Saúde publicou, há algumas semanas, nota técnica permitindo a ampliação do público-alvo da vacina para doses com prazo de validade próximo ao vencimento. Nesse caso, as doses com um prazo de dois meses de validade poderão ser remanejadas para municípios ainda não contemplados pela vacinação contra dengue ou aplicadas em faixa etária ampliada, atendendo pessoas de 6 a 16 anos de idade. Já as vacinas que estiverem a um mês da validade poderão ser aplicadas em qualquer pessoa dentro dos limites de idade especificados na bula do imunizante, que abrange a faixa etária de 4 a 59 anos, 11 meses e 29 dias de idade.
A eficácia da vacina da Takeda verificada em ensaios clínicos é de cerca de 63% para doença sintomática de qualquer gravidade e 85% para internação. Produzida por meio da tecnologia de DNA recombinante, ela usa o próprio sorotipo 2 da dengue enfraquecido como base. A vacina estimula uma resposta do sistema imunológico para produzir anticorpos de forma mais rápida, porém sem o desenvolvimento da doença, pois o vírus tem sua atividade diminuída.
Além dos vírus atenuados, esse imunizante contém em sua composição trealose di-hidratada, poloxaleno, albumina sérica humana, fosfato de potássio monobásico, fosfato de sódio dibásico di-hidratado, cloreto de potássio e cloreto de sódio. O diluente é constituído por cloreto de sódio e água para injetáveis. Não possui adjuvantes, nem conservantes.
Quem já teve a doença também deve se vacinar
A administração da vacina é feita de forma subcutânea em duas doses, com intervalo de três meses, tanto em indivíduos que nunca tiveram dengue como nos que já enfrentaram algum subtipo da doença. É importante lembrar que a imunidade conseguida após contrair a dengue é específica para cada sorotipo. Os quatro sorotipos do vírus são, na verdade, variações do microrganismo que se distinguem por diferenças genéticas, por isso a pessoa pode ter a doença até quatro vezes ao longo de sua vida. Uma vez exposto, após a remissão o indivíduo fica protegido especificamente para aquele tipo, mas continua vulnerável aos outros, e o risco de desenvolver uma forma grave é maior, por isso a importância de se vacinar mesmo já tendo contraído dengue no passado.
Os efeitos colaterais mais comuns incluem reações no local da injeção, febre, dor de cabeça e fadiga. A maioria das manifestações são leves e temporárias, de curta duração (até três dias), e mais frequentes após a primeira dose. Outras reações possíveis são inchaço, hematoma e coceira no local da injeção, dor nas articulações, náuseas e erupção cutânea. Eventos graves são extremamente raros.
Um imunizante nacional a caminho
Desde 2009, os pesquisadores do Centro bioindustrial do Instituto Butantan trabalham na produção de um imunizante nacional contra a doença. Nomeada de Butantan-DV, é a primeira vacina do mundo contra a dengue ministrada em dose única. Os estudos já estão na fase 3, apresentando resultados animadores: 79,6% de eficácia geral para prevenir casos de dengue sintomática; 89,2% de eficácia naqueles que já tinham contraído dengue; e 73,5% de eficácia em quem nunca teve contato com o vírus.
Das mais de 10 mil pessoas que receberam o imunizante na fase 3, apenas três (menos de 0,1%) apresentaram eventos adversos graves, e todos se recuperaram totalmente. A proteção de 89% contra dengue grave e dengue com sinais de alarme foi publicada no The Lancet Infectious Diseases, em estudo que constatou eficácia e segurança da Butantan-DV por até cinco anos e favorece a continuação do desenvolvimento da vacina para indivíduos de 2 a 59 anos, independente do histórico de infecção prévia de dengue.
O ensaio clínico desse imunizante é um dos maiores conduzidos inteiramente no Brasil, envolvendo 16 mil voluntários em 16 centros de pesquisa espalhados por 14 estados. A Butantan-DV é feita em parceria com o Instituto Nacional de Saúde Americano (NIH) e com a farmacêutica MSD.
Vacinação em massa
A produção da vacina pelo Butantan já teve início, mas a população brasileira não será vacinada com ela ainda neste ano. A dificuldade é fazer com que a fabricação ganhe escala para chegar a uma centena de milhões de doses. O instituto prevê a produção de 1 milhão de doses em 2025, 60 milhões em 2026 e 40 milhões em 2027, totalizando a produção de mais de 100 milhões de doses do imunizante em três anos. A entrega, entretanto, só poderá ocorrer após a liberação da Anvisa.
No momento, a agência faz a análise dos dados entregues pelo Instituto Butantan. Posteriormente, a vacina deverá ser submetida à Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec) para incorporação ao Sistema Único de Saúde (SUS).
Fontes:
https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/a/aedes-aegypti/monitoramento-das-arboviroses
https://familia.sbim.org.br/vacinas/vacinas-disponiveis/vacinas-dengue
https://butantan.gov.br/dengue
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